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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Comunicação e Artes Visuais


ONTOLOGIA DA IMAGEM FOTOGRÁFICA
André Bazin
(Traduzido de André Bazin, Qu’est-ce que le cinéma? vol. 1, Paris, Editions du Cerf, 1958). In XAVIER, Ismail. A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro : Edições Graal: Embrafilmes, 1983, p. 121 ss.

É ponto pacifico a evolução pacifica da arte e da civilização destituiu as artes plásticas de suas funções mágicas. Mas esta evolução, tudo o que conseguiu foi sublimar, pela via de um pensamento lógico, esta necessidade incoercível de exorcizar o tempo; A fabricação da imagem chegou a se libertar de qualquer utilitarismo antropocêntrico; O que conta não é mais a sobrevivência do homem e sim, em escala mais ampla, a criação de um universo ideal à imagem do real, dotado de destino temporal autônomo; A historia das artes plásticas não somente a de sua estética, mas antes a de sua psicologia, então ela é essencialmente a historia da semelhança, ou, se se quer, do realismo.
A fotografia e o cinema, explicariam tranquilamente a grande crise espiritual e técnica da pintura moderna, que se origina por volta de meados do século passado.
No século XV o pintor ocidental começou a se afastar da preocupação primordial de tão só exprimir a realidade espiritual por meios autônomos para combinar a sua expressão com a imitação mais ou menos integral do mundo exterior. O acontecimento decisivo foi sem duvida a invenção do primeiro sistema cientifico e, de certo modo, já mecânico: a perspectiva. Ele permitia ao artista dar a ilusão de um espaço de três dimensões onde os objetos podiam se situar como na nossa percepção direta.
Desde então, a pintura viu-se esquartejada entre duas aspirações: uma propriamente estética – a expressão das realidades espirituais em que o modelo se acha transcendido pelo simbolismo das formas –, e outra, esta não mais que um desejo puramente psicológico de substituir o mundo exterior pelo seu duplo.
A polemica quanto ao realismo na arte provem desse mal-entendido, dessa confusão entre o estético e o psicológico, entre o verdadeiro realismo, que implica exprimir a significação a um só tempo concreta e essencial do mundo, e o pseudo-realismo do trompe Poeil; A perspectiva foi o pecado original da pintura ocidental.
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A fotografia , ao redimir o barroco, liberou as artes plásticas de sua obsessão pela semelhança; Diante da imagem uma duvida persistia, por causa da presença do homem. Assim, o fenômeno essencial na passagem da pintura barroca à fotografia não reside n mero aperfeiçoamento material, mas num fato psicológico: a satisfação completa do nosso afã de ilusão por uma reprodução mecânica da qual o homem se achava excluído.
É no século XIX que se inicia a crise do realismo, da qual Picasso é hoje o mito, abalando ao mesmo tempo tanto as condições de existência formal das artes plásticas quanto os seus fundamentos sociológicos.
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A originalidade da fotografia em relação  à pintura reside, pois, na sua objetividade essencial. Tanto é que o conjunto de lentes que constitui o olho fotográfico em substituição ao olho humano, denomina-se precisamente “objetiva”; Pela primeira vez, uma imagem do mundo exterior de forma, automaticamente, sem a intervenção criadora do homem, segundo seu rigoroso determinismo. A personalidade do fotografo entra em jogo somente pela escolha, pela orientação, pela pedagogia do fenômeno; Todas as artes se fundem sobre a presença do homem; unicamente na fotografia é que fruímos da sua ausência.
Esta gênese automática subverteu radicalmente a psicologia da imagem. A objetividade da fotografia confere-lhe um poder de credibilidade ausente de qualquer obra pictórica; A fotografia se beneficia de uma transferência de realidade da coisa pra sua reprodução;  desenho mais fiel pode nos fornecer mais indícios acerca do modelo: jamais possuirá, a despeito do nosso espírito critico, o poder  irracional da fotografia, que nos arrebata a credulidade.
Só a objetiva nos dá do objeto uma imagem capaz de “desrecalcar”, no fundo de nosso inconsciente, esse necessidade de substituir o objeto por algo melhor do que um decalque aproximado: o próprio objeto, porém liberado das contingencias temporais.
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O cinema vem a ser a consecução no tempo da objetividade fotográfica; Pela primeira vez, a imagem das coisas é também a imagem da duração delas, como que uma múmia da mutação.
As categorias das semelhanças que especificam a imagem fotográfica determinam, pois, também a sua estética em relação à pintura. As virtualidades estéticas da fotografia residem na revelação do real; Na fotografia, imagem natural de um mundo que não sabemos ou não podemos ver, a natureza, enfim faz mais do que imitar a arte: ela imita o artista.   
No surrealismo, o efeito estético é inseparável da impressão mecânica da imagem sobre nosso espírito; Toda Imagem deve ser sentida como objeto e todo objeto como imagem. A fotografia representava, pois, uma técnica privilegiada para a criação surrealista, já que ela materializa uma imagem que participa da natureza: uma alucinação verdadeira.
A fotografia vem a ser, pois, o acontecimento mais importante da historia das artes plásticas. Ao mesmo tempo sua libertação e manifestação plena, a fotografia permitiu à pintura ocidental desembaraçar-se definitivamente da obsessão realista e reencontrar a sua autonomia estética.
Nada mais doravante que a condenação pascaliana, uma vez que a fotografia nos permite, por um lado, admirar em sua reprodução o original que os nossos olhos não teriam sabido amar, e na pintura um puro objeto cuja referencia à natureza já não é mais a sua razão de ser.
 Por outro lado, o cinema é uma linguagem.

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Curtas

Salada Midiáticas Animação feita por alunos de Comunicação da UFRN